Prótese obturadora de palato no paciente oncológico: reabilitação após cirurgia de cabeça e pescoço
- Gabrielle Aguiar

- há 2 dias
- 7 min de leitura
Atualizado: há 1 dia

O tratamento dos tumores de cabeça e pescoço pode envolver cirurgias extensas, especialmente quando a doença acomete o palato, a maxila, o seio maxilar ou estruturas adjacentes. Embora a ressecção cirúrgica seja fundamental para o controle oncológico em determinados casos, a remoção de estruturas do complexo maxilomaxilar pode resultar em alterações anatômicas e funcionais importantes.
Entre as possíveis consequências estão a comunicação entre as cavidades oral e nasal, alterações na fala, dificuldade para mastigar e deglutir, passagem de líquidos e alimentos para o nariz e mudanças na aparência facial. Essas repercussões podem interferir diretamente na alimentação, comunicação, interação social e qualidade de vida.
Nesse contexto, a prótese obturadora de palato constitui uma importante possibilidade de reabilitação para pacientes com defeitos adquiridos após cirurgias oncológicas.
O que é uma prótese obturadora de palato?
A prótese obturadora é um dispositivo confeccionado individualmente para vedar um defeito na região do palato ou da maxila, contribuindo para restabelecer a separação entre as cavidades oral e nasal.
Após uma maxilectomia, por exemplo, pode permanecer uma comunicação oronasal. Dependendo da localização e da extensão do defeito, essa comunicação pode comprometer funções essenciais, como fala, deglutição e alimentação.
O obturador ocupa ou recobre essa região, criando uma barreira protética que pode favorecer a recuperação funcional. Portanto, sua finalidade não é simplesmente preencher uma área perdida. O objetivo é proporcionar reabilitação funcional e adaptação às alterações anatômicas provocadas pela cirurgia.
A literatura reconhece a obturação protética como uma das alternativas de reabilitação para pacientes submetidos à maxilectomia, ao lado das diferentes modalidades de reconstrução cirúrgica. Entretanto, não existe uma indicação universal: a escolha deve considerar as características anatômicas, clínicas e funcionais de cada paciente. [1]
Por que a cirurgia pode afetar a fala e a alimentação?
O palato participa da separação entre as cavidades oral e nasal e exerce papel importante na produção da fala e na dinâmica da deglutição. Quando parte dessa estrutura é removida, pode ocorrer uma comunicação entre boca e nariz. Isso pode alterar o direcionamento do fluxo de ar e a ressonância da voz, além de permitir que alimentos e líquidos alcancem a cavidade nasal.
A intensidade dessas alterações varia de acordo com:
localização do tumor;
extensão da ressecção;
estruturas anatômicas preservadas;
tamanho e configuração do defeito;
presença de dentes remanescentes;
condições dos tecidos;
realização de radioterapia;
condições clínicas e funcionais do paciente.
Por essa razão, pacientes submetidos a procedimentos semelhantes podem apresentar necessidades de reabilitação bastante diferentes.
Quais são os objetivos da prótese obturadora?
A prótese obturadora pode ter diferentes objetivos funcionais, de acordo com as características do defeito e as necessidades do paciente.
Entre eles estão:
restabelecer a separação entre as cavidades oral e nasal;
reduzir a passagem de líquidos e alimentos para a cavidade nasal;
favorecer a mastigação;
auxiliar na deglutição;
contribuir para a produção e inteligibilidade da fala;
melhorar a ressonância vocal;
favorecer a alimentação por via oral;
auxiliar na adaptação às alterações anatômicas;
contribuir para a qualidade de vida.
Estudos clínicos demonstram que a reabilitação protética pode estar associada à melhora progressiva de aspectos relacionados à fala e à qualidade de vida após a maxilectomia.
Em estudo clínico com 30 pacientes acompanhados durante diferentes fases da reabilitação, foram observadas alterações significativas em diversos domínios de qualidade de vida e em parâmetros acústicos da fala. Os resultados mostraram melhora progressiva durante a utilização dos diferentes obturadores, com melhores resultados na fase de reabilitação definitiva. [2] Isso não significa que a prótese elimine todas as limitações decorrentes da cirurgia. Seu benefício depende da anatomia do defeito, da adaptação, da retenção e estabilidade da prótese e das condições gerais do paciente.
A reabilitação pode começar na cirurgia
A reabilitação protética pode ser planejada para diferentes momentos do tratamento.
Em determinados casos, são utilizadas etapas sucessivas, que podem incluir dispositivos empregados no período cirúrgico ou pós-operatório, obturadores provisórios e, posteriormente, uma prótese definitiva. Essa abordagem permite acompanhar a cicatrização e as mudanças nos tecidos ao longo do tempo.
A literatura descreve protocolos em que diferentes etapas de obturação são utilizadas após a maxilectomia. O momento adequado para cada etapa, entretanto, deve ser definido individualmente. A presença de radioterapia, alterações de cicatrização, condição dos tecidos e características do defeito podem modificar o planejamento.
Prótese obturadora e qualidade de vida
As repercussões de uma cirurgia maxilomaxilar não se restringem às funções da cavidade oral. Falar, comer e conviver socialmente são atividades diretamente relacionadas à autonomia e à qualidade de vida. Alterações nessas funções podem levar o paciente a evitar determinadas situações sociais ou modificar seus hábitos alimentares e de comunicação.
Em uma investigação realizada com pacientes com defeitos maxilofaciais tratados com próteses obturadoras, aspectos como funcionamento da prótese, alimentação, fala, aparência, extensão do tratamento e dor apresentaram impacto significativo na qualidade de vida. [3]
A literatura reforça que a avaliação da reabilitação não deve considerar apenas a retenção da prótese. É necessário observar como o paciente consegue falar, alimentar-se, higienizar-se, conviver socialmente e realizar suas atividades cotidianas.
Prótese obturadora ou reconstrução cirúrgica?
Essa é uma decisão que não deve ser tomada de maneira padronizada. A reconstrução cirúrgica e a reabilitação com prótese obturadora são estratégias diferentes, e cada uma apresenta características, indicações e limitações próprias.
Uma revisão sistemática publicada em 2018 avaliou estudos sobre diferentes modalidades de reabilitação após maxilectomia, incluindo reconstrução cirúrgica, próteses obturadoras e tratamentos associados a implantes. Os autores concluíram que não havia consenso suficiente para estabelecer uma abordagem universalmente superior e destacaram a necessidade de considerar as características individuais do paciente. [1]
Evidências mais recentes continuam apontando para a necessidade de individualização. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 comparou reabilitação cirúrgica e protética em pacientes submetidos à maxilectomia e avaliou desfechos como qualidade de vida, fala e mastigação. Os resultados não sustentaram uma superioridade global de uma modalidade para todos os pacientes. [5]
Assim, a decisão deve ser integrada ao planejamento da equipe responsável pelo tratamento oncológico, considerando extensão do defeito, condições clínicas, possibilidade de reconstrução, radioterapia, dentição remanescente, prognóstico e objetivos funcionais.
A importância da avaliação individualizada
A confecção de uma prótese obturadora exige avaliação detalhada. Entre os fatores considerados estão:
• localização e extensão do defeito;
• estruturas anatômicas preservadas;
• quantidade e condição dos dentes remanescentes;
• condição periodontal;
• qualidade dos tecidos;
• cicatrização;
• presença de radioterapia;
• condição da mucosa oral;
• fluxo salivar;
• abertura bucal;
• capacidade de higienização;
• capacidade de manipulação da prótese;
• condições clínicas gerais;
• necessidades relacionadas à fala, deglutição e alimentação.
A retenção e a estabilidade da prótese também são aspectos fundamentais para seu desempenho. Uma prótese que não apresenta estabilidade adequada pode comprometer sua função e dificultar a alimentação e a fala. Estudos demonstram que o funcionamento do obturador está relacionado à qualidade de vida dos pacientes reabilitados. [3,4]
Por isso, o planejamento não deve se limitar à confecção do dispositivo. O acompanhamento e os ajustes ao longo do tempo fazem parte da reabilitação.
Odontologia Hospitalar e reabilitação do paciente oncológico
O cuidado odontológico começa antes da cirurgia. A avaliação pré-operatória permite conhecer as condições da cavidade oral, identificar necessidades odontológicas, avaliar a dentição que poderá contribuir para a retenção protética e participar do planejamento multidisciplinar.
Após a cirurgia, o acompanhamento permite avaliar a cicatrização, a condição da mucosa, a higiene oral, a adaptação do obturador e a necessidade de ajustes.
Em pacientes submetidos à radioterapia ou a outros tratamentos antineoplásicos, o acompanhamento odontológico também permite identificar e manejar alterações que possam interferir na saúde oral e na utilização da prótese.
A reabilitação pode envolver diferentes profissionais, de acordo com as necessidades de cada paciente. A integração entre Odontologia Hospitalar, cirurgia de cabeça e pescoço, prótese bucomaxilofacial, fonoaudiologia, nutrição e demais áreas da equipe multiprofissional pode favorecer uma abordagem mais abrangente.
Reabilitar também é cuidar
O tratamento do câncer de cabeça e pescoço pode representar uma mudança significativa na vida do paciente. Depois da cirurgia, recuperar a capacidade de falar, alimentar-se e interagir socialmente é parte importante do processo de reabilitação.
A prótese obturadora de palato pode desempenhar um papel relevante nesse processo ao oferecer uma solução individualizada para determinados defeitos adquiridos do palato e da maxila. Por isso, mais do que considerar a prótese como um dispositivo isolado, é importante compreendê-la como parte de um processo de reabilitação integrado ao cuidado oncológico.
A Odontologia Hospitalar busca acompanhar o paciente oncológico de maneira individualizada, considerando as repercussões do tratamento sobre a cavidade oral e sobre funções essenciais como alimentação, comunicação e qualidade de vida.
Reabilitar não significa apenas reconstruir uma estrutura. Significa ajudar o paciente a recuperar funções e possibilidades de viver sua rotina com mais segurança, conforto e autonomia.
Referências bibliográficas
1. DOS SANTOS, D. M.; DE CAXIAS, F. P.; BITENCOURT, S. B.; TURCIO, K. H. L.; PESQUEIRA, A. A.; GOIATO, M. C. Oral rehabilitation of patients after maxillectomy. A systematic review. British Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, v. 56, n. 4, p. 256–266, 2018. DOI: 10.1016/j.bjoms.2018.03.001.
2. DHOLAM, K. P.; BACHHER, G.; GURAV, S. V. Changes in the quality of life and acoustic speech parameters of patients in various stages of prosthetic rehabilitation with an obturator after maxillectomy. The Journal of Prosthetic Dentistry, v. 123, n. 2, p. 355–363, 2020. DOI: 10.1016/j.prosdent.2019.03.005.
3. DEPPRICH, R.; NAUJOKS, C.; LIND, D.; OMMERBORN, M.; MEYER, U.; KÜBLER, N. R.; HANDSCHEL, J. Evaluation of the quality of life of patients with maxillofacial defects after prosthodontic therapy with obturator prostheses. International Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, v. 40, n. 1, p. 71–79, 2011. DOI: 10.1016/j.ijom.2010.09.019.
4. CHIGURUPATI, R.; ALOOR, N.; SALAS, R.; SCHMIDT, B. L. Quality of life after maxillectomy and prosthetic obturator rehabilitation. Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, v. 71, n. 8, p. 1471–1478, 2013. DOI: 10.1016/j.joms.2013.02.002.
5. COMPARATIVE analysis of surgical and prosthetic rehabilitation in maxillectomy: a systematic review and meta-analysis on quality-of-life scores and objective speech and masticatory measurements. The Journal of Prosthetic Dentistry, v. 133, n. 1, p. 305–314, 2025. DOI: 10.1016/j.prosdent.2023.11.023.



Comentários