top of page

Odontologia Hospitalar na UTI: higiene oral, controle de focos odontogênicos e impacto na segurança e na recuperação do paciente crítico

Foto do escritor: Gabrielle Aguiar
Gabrielle Aguiar
1 de set.
7 min de leitura

Atualizado: 5 de set.

Atendimento odontológico no leito da UTI

A assistência ao paciente crítico exige uma abordagem multiprofissional capaz de integrar prevenção de infecções, manutenção das funções fisiológicas, segurança nutricional e recuperação funcional. Nesse contexto, a saúde bucal não deve ser compreendida apenas como uma dimensão complementar do cuidado, mas como parte integrante da assistência ao paciente hospitalizado, especialmente daqueles submetidos à ventilação mecânica, com internação prolongada, alteração do nível de consciência, disfagia, imunossupressão ou necessidade de suporte nutricional enteral.

A internação em unidade de terapia intensiva produz importantes alterações na cavidade oral. A redução ou ausência do fluxo salivar, a respiração oral, o uso de medicamentos, a restrição hídrica, a impossibilidade de realizar autocuidado, a presença de dispositivos invasivos e a redução da ingestão oral favorecem o acúmulo de biofilme e a deterioração das condições bucais. Paralelamente, a gravidade da doença e o prolongamento da permanência hospitalar podem aumentar a ocorrência de alterações da mucosa, ressecamento, lesões, sangramento, alterações periodontais e comprometimento da função oral.

A literatura reconhece a importância da higiene oral sistematizada como componente do cuidado ao paciente crítico. A atualização de 2022 da SHEA/IDSA/APIC recomenda a realização regular de cuidados orais, incluindo escovação bucal ou utilização de gaze quando o paciente não possui dentes, como uma das estratégias de prevenção de Odontologia Hospitalar na UTI: higiene oral, controle de focos odontogênicos e impacto na segurança e na recuperação do paciente crítico eventos associados à ventilação mecânica e à pneumonia hospitalar. O documento também recomenda a aspiração das secreções orais antes das mudanças de posicionamento, reforçando a importância do controle das secreções e da higiene da cavidade oral no contexto da prevenção de complicações respiratórias.

No entanto, a importância da Odontologia Hospitalar na UTI de não se reduzir à aplicação de um protocolo de higiene oral. O cuidado odontológico deve envolver avaliação clínica individualizada, controle do biofilme, manejo de alterações de mucosa e saliva, identificação de focos infecciosos odontogênicos, adequação das condições periodontais e dentárias e acompanhamento longitudinal da evolução da saúde bucal.

Embora exista plausibilidade biológica e evidência de que o controle do biofilme e das secreções possa contribuir para a redução da carga microbiana oral, os estudos apresentam heterogeneidade significativa quanto aos protocolos empregados, produtos utilizados, frequência dos cuidados e desfechos avaliados. Revisões sistemáticas recentes indicam que protocolos estruturados de cuidado oral apresentam benefícios mais consistentes sobre as condições bucais e mucosas, enquanto os resultados relacionados especificamente à redução da PAV e da mortalidade ainda são inconsistentes. Uma revisão sistemática publicada em 2026, que avaliou protocolos de higiene oral relacionados à prevenção de PAV e mortalidade em pacientes adultos de UTI, identificou grande heterogeneidade entre os protocolos e observou que poucos estudos incluíram avaliação odontológica propriamente dita ou investigação sistemática de focos de infecção odontogênica. Os autores ressaltam que a participação insuficiente de cirurgiões-dentistas pode limitar a identificação e o tratamento dessas condições.

Portanto, a presença da Odontologia Hospitalar na UTI deve ser compreendida como uma intervenção assistencial mais ampla que o simples fornecimento de cuidados de higiene oral. O cirurgião-dentista pode atuar na identificação precoce de alterações potencialmente capazes de interferir na evolução clínica, contribuindo para a redução da carga infecciosa oral, manutenção da integridade dos tecidos, controle da dor e das lesões, manejo da xerostomia e preparação da cavidade oral para a retomada progressiva das funções.


Saúde bucal e reestabelecimento da via oral


Outro aspecto relevante é a relação entre a condição oral e a recuperação da função de alimentação por via oral. A permanência prolongada em ventilação mecânica pode estar associada à disfagia orofaríngea pós-extubação, condição que aumenta o risco de aspiração, pneumonia aspirativa, desnutrição e prolongamento da hospitalização.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2024 demonstrou que a disfagia pós-extubação é uma complicação frequente em pacientes críticos submetidos à intubação orotraqueal e está associada a desfechos clínicos adversos.

A condição da cavidade oral deve, portanto, ser considerada dentro desse processo de recuperação funcional. Saliva, dentes, língua, musculatura orofacial, sensibilidade oral e integridade das mucosas participam de diferentes etapas da preparação e da deglutição do alimento. Estudos em populações idosas demonstram associação entre alterações da saúde bucal, redução do fluxo salivar e disfagia orofaríngea, embora a literatura ainda não permita estabelecer uma relação causal direta para todos esses fatores. Essa associação ganha relevância no paciente crítico, especialmente naquele que permanece por períodos prolongados sem alimentação oral. Xerostomia, dor, lesões de mucosa, alterações dentárias, perda de força e coordenação orofacial e acúmulo de secreções podem comprometer a experiência e a funcionalidade oral. Dessa forma, a Odontologia Hospitalar pode contribuir para preparar e manter a cavidade oral em condições adequadas durante o processo de recuperação, em articulação com Fonoaudiologia, Nutrição, Enfermagem e equipe médica.

É importante, contudo, evitar uma interpretação causal inadequada: não se deve afirmar que a higiene oral, isoladamente, acelera a retomada da alimentação oral. O que a evidência permite sustentar é que a saúde bucal integra o conjunto de fatores que influenciam a função oral e a deglutição e que a abordagem multiprofissional é necessária para pacientes com risco ou presença de disfagia.


O papel da Odontologia Hospitalar


A análise dos indicadores institucionais demonstra a importância do acompanhamento longitudinal. Quando o índice de higiene oral apresenta piora progressiva conforme aumenta o tempo de hospitalização, especialmente após 48 horas, esse comportamento deve ser interpretado como um sinal de deterioração das condições bucais associado à própria dinâmica do cuidado crítico. Essa observação é coerente com a literatura, que demonstra elevada frequência de alterações bucais entre pacientes hospitalizados e aponta associação entre saúde oral inadequada e diferentes desfechos clínicos, particularmente em idosos e pacientes vulneráveis.

Assim, o período de internação não deve ser encarado apenas como uma janela para execução de higiene oral, mas como um período no qual ocorre mudança dinâmica do risco odontológico. Quanto maior o tempo de hospitalização, maior pode ser a necessidade de reavaliação e de intensificação das intervenções. Esse conceito justifica a utilização de indicadores seriados, permitindo identificar não apenas a situação pontual do paciente, mas sua trajetória clínica. A avaliação em diferentes momentos — por exemplo, nas primeiras 24 horas, em 48 horas e após 48 horas — pode fornecer informações relevantes para a gestão assistencial e para a definição de estratégias preventivas.

A contribuição da Odontologia Hospitalar deve, portanto, pode ser demonstrada por meio de um conjunto de indicadores, e não por um único desfecho. Diante desse cenário, recomenda-se que o cuidado odontológico do paciente crítico seja estruturado em três dimensões complementares.


Primeira dimensão — higiene e integridade oral: identificação e controle do biofilme, limpeza mecânica, hidratação e lubrificação, manejo das alterações de mucosa, língua, lábios, gengivas e saliva.


Segunda dimensão — avaliação odontológica: investigação de dentes comprometidos, doença periodontal, lesões, infecções, dor, próteses inadequadas e possíveis focos odontogênicos.


Terceira dimensão — função oral e recuperação: acompanhamento das condições que podem interferir na mastigação, conforto oral, mobilidade e função orofacial, em articulação com Fonoaudiologia, Nutrição, Enfermagem e equipe médica durante o processo de recuperação e retomada da via oral.


Essa abordagem permite transformar a Odontologia Hospitalar de uma atividade predominantemente procedimental em uma linha assistencial integrada à segurança do paciente e à recuperação funcional.


Considerações finais


A evidência científica atual sustenta a inclusão da saúde oral como componente do cuidado integral ao paciente crítico. A higiene oral é uma prática recomendada dentro das estratégias de prevenção de complicações respiratórias, porém a prevenção da PAV depende de um conjunto de medidas assistenciais e não pode ser atribuída isoladamente à Odontologia.

Nesse cenário, o principal diferencial da Odontologia Hospitalar é justamente ampliar o olhar para além da higiene: avaliar, diagnosticar, tratar e monitorar a condição oral do paciente durante toda a internação.

O índice de higiene oral representa uma ferramenta importante para mensurar a qualidade da higiene oral, mas deve ser complementado por um indicador específico de condição odontológica e presença de foco infeccioso. A combinação desses dados permite diferenciar deterioração da higiene, alteração de mucosa, comprometimento salivar e doença odontológica ativa — condições que apresentam implicações assistenciais distintas.

Da mesma forma, a relação entre saúde oral, disfagia e retomada da alimentação oral deve ser incorporada ao planejamento assistencial, respeitando a atuação específica de cada profissão. A literatura atual aponta associação entre alterações da saúde oral, xerostomia e disfagia, além de demonstrar a relevância da reabilitação da deglutição após a extubação.

Dessa forma, a Odontologia Hospitalar pode contribuir para um modelo assistencial baseado em prevenção, detecção precoce, controle de riscos, indicadores de qualidade e recuperação funcional, integrando-se às estratégias institucionais de segurança do paciente, prevenção de infecções relacionadas à assistência à saúde e redução de complicações associadas à hospitalização prolongada.

A proposta não é atribuir à Odontologia a responsabilidade isolada por desfechos complexos, como PAV ou tempo de internação, mas demonstrar que a condição oral é uma variável clínica modificável e mensurável que deve fazer parte da avaliação global do paciente hospitalizado. A utilização sistemática de indicadores permite, inclusive, produzir dados institucionais capazes de avaliar a efetividade do modelo assistencial e orientar intervenções futuras.


Referências científicas principais

  1. Klompas M, Branson R, Cawcutt K, et al. Strategies to prevent ventilator-associated pneumonia, ventilator-associated events, and nonventilator hospital-acquired pneumonia in acute-care hospitals: 2022 Update. Infection Control & Hospital Epidemiology. 2022.

  2. Gomes RFT, Castelo EF, Gründling CA. Evaluation of the effectiveness of oral hygiene protocols adopted for the prevention of ventilator-associated pneumonia and mortality in the adult intensive care unit: a systematic review. Journal of Hospital Infection. 2026;174:389-401. DOI: 10.1016/j.jhin.2026.06.008.

  3. Vilela MCN, Ferreira GZ, Santos PSS, et al. Oral care and nosocomial pneumonia: a systematic review. Einstein (São Paulo). 2015;13(2):290-296. DOI: 10.1590/S1679-45082015RW2980.

  4. Chen L, Liu C, Yuan M, et al. Interventions for Postextubation Dysphagia in Critically Ill Patients: A Systematic Review and Meta-analysis. Dysphagia. 2024;39(6):1013-1024. DOI: 10.1007/s00455-024-10695-1.

  5. Morais et al. Dental Factors Associated With Oropharyngeal Dysphagia in Institutionalised Older Adults: A Systematic Review. Gerodontology. 2025/2026. DOI: 10.1111/ger.70034.

  6. Morales C, et al. The Relationship Between Oral Health and Swallowing Function in Older Adults: A Scoping Review. Geriatrics & Gerontology International. 2026. DOI: 10.1111/ggi.70421.

  7. Kallás MS, Guardieiro B, Rendeiro MM. Oral care and conditions in hospitalized elderly people – integrative review. Arquivos de Ciências da Saúde da UNIPAR. 2023. DOI: 10.25110/arqsaude.v27i4.2023-014.

 
 
 

Comentários


bottom of page