Odontologia nos cuidados paliativos


Nos cuidados paliativos, o objetivo da assistência não é apenas tratar a doença, mas cuidar da pessoa de forma integral, considerando seus sintomas, necessidades, valores e objetivos de cuidado. Nesse contexto, a Odontologia nos cuidados paliativos contribui para preservar conforto, função e qualidade de vida.
A boca participa de funções fundamentais, como falar, alimentar-se, deglutir e expressar-se. Alterações bucais podem provocar dor, ressecamento, sangramento, infecções, dificuldade para se alimentar e desconforto, interferindo diretamente no bem-estar do paciente. Por isso, o cuidado com a saúde bucal deve fazer parte da atenção multiprofissional, especialmente quando sintomas orais comprometem o conforto ou as atividades que são importantes para aquela pessoa.
Odontologia também é cuidado e conforto
Pacientes em cuidados paliativos podem apresentar alterações bucais relacionadas à própria doença, às condições clínicas associadas, à redução da ingestão de líquidos e alimentos, à desidratação, à respiração oral e ao uso de diferentes medicamentos. Entre as manifestações mais frequentes estão boca seca, dor, alterações da mucosa, candidíase, acúmulo de biofilme, cárie e dificuldades relacionadas ao uso de próteses. Em pacientes com câncer, os efeitos dos tratamentos também podem contribuir para o aparecimento ou agravamento dessas condições.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 identificou elevada frequência de alterações bucais em pacientes sob cuidados paliativos, incluindo cárie e candidíase, e destacou a importância da avaliação odontológica precoce e do acompanhamento regular. Nesse cenário, cuidar da boca não significa necessariamente realizar procedimentos complexos. Muitas vezes, medidas simples e individualizadas podem produzir importante benefício para o conforto e a qualidade de vida.
Quando a saúde bucal interfere na qualidade de vida
A presença de dor, boca seca, lesões de mucosa ou infecções pode dificultar a alimentação, a comunicação e o uso de próteses. Esses sintomas também podem interferir no sono, nas relações sociais e na experiência de atividades cotidianas.
A xerostomia, por exemplo, é um sintoma frequente e relevante em pacientes com doenças avançadas. Sua avaliação e manejo devem considerar as possíveis causas, os medicamentos utilizados e as condições clínicas do paciente.
Em pacientes que ainda se alimentam por via oral, preservar o conforto durante as refeições pode ser particularmente importante. A Odontologia pode contribuir identificando e tratando fatores bucais que dificultam a mastigação ou provocam dor.
Controle de sintomas e preservação da função
A atuação odontológica nos cuidados paliativos é direcionada principalmente às necessidades apresentadas pelo paciente e aos objetivos definidos para o cuidado. Entre as situações que podem ser avaliadas e manejadas estão:
dor odontogênica ou associada a lesões da mucosa;
xerostomia e hipossalivação;
candidíase e outras infecções oportunistas;
lesões traumáticas;
acúmulo de biofilme e resíduos alimentares;
sangramentos e inflamações;
desconforto relacionado a dentes ou próteses;
dificuldades para mastigar ou falar;
alterações bucais que interferem na alimentação e na deglutição.
As estratégias podem envolver higiene oral adaptada, controle de biofilme, hidratação e lubrificação da mucosa, cuidados com próteses, tratamento de infecções e intervenções odontológicas direcionadas ao alívio de sintomas.
A escolha de cada conduta deve considerar o estado clínico, a capacidade funcional, o prognóstico e os objetivos de cuidado. A literatura especializada recomenda avaliação, manejo e reavaliação sistemáticos dos problemas bucais em pacientes com câncer avançado.
Uma abordagem individualizada
Nos cuidados paliativos, a indicação de um procedimento odontológico não deve ser baseada apenas na possibilidade técnica de realizá-lo. É necessário avaliar se aquela intervenção poderá efetivamente trazer benefício ao paciente. Em determinadas situações, um tratamento mais invasivo pode não estar de acordo com os objetivos de cuidado. Em outras, uma intervenção simples pode ser importante para controlar uma dor, facilitar a alimentação ou permitir novamente o uso de uma prótese. A abordagem deve ser individualizada e continuamente ajustada às mudanças clínicas e às prioridades do paciente. O objetivo não é tratar todas as alterações bucais a qualquer custo, mas identificar aquilo que pode ser modificado para proporcionar mais conforto, função e qualidade de vida.
Odontologia integrada à equipe multiprofissional
Os cuidados paliativos são construídos por uma equipe multiprofissional. A Odontologia pode atuar em conjunto com Medicina, Enfermagem, Fonoaudiologia, Nutrição, Fisioterapia, Psicologia e outros profissionais envolvidos na assistência. Essa integração permite compreender as alterações bucais dentro do contexto clínico global e estabelecer condutas coerentes com o plano de cuidado.
A participação da Fonoaudiologia, por exemplo, pode ser fundamental quando existem alterações de deglutição. Da mesma forma, a Nutrição pode contribuir para adequar a alimentação às condições e preferências do paciente. A Odontologia acrescenta a avaliação específica da cavidade oral e das estruturas relacionadas à mastigação, deglutição, fala e conforto.
Cuidar da boca em diferentes momentos da doença
As necessidades odontológicas podem mudar ao longo da evolução de uma doença. Em determinados momentos, pode ser possível investir na prevenção e no tratamento de condições bucais que comprometem a função. Com a progressão da doença e o aumento da fragilidade, o foco pode se concentrar cada vez mais no controle de sintomas e no conforto. Essa adaptação é particularmente importante para pacientes acompanhados em domicílio ou em instituições de longa permanência, nos quais familiares e cuidadores podem participar diretamente da rotina de higiene e dos cuidados com a boca.
Orientações simples e individualizadas podem ajudar a manter a higiene oral, reduzir desconfortos e facilitar a identificação de alterações que necessitam de avaliação profissional. A higiene oral é reconhecida como parte importante dos cuidados de pessoas em situação paliativa.
O cuidado orientado pelo que importa para cada pessoa
Cuidar em cuidados paliativos também significa reconhecer que os objetivos podem mudar. Para algumas pessoas, manter a capacidade de comer é uma prioridade. Para outras, o mais importante pode ser controlar uma dor, reduzir a sensação de boca seca, conseguir conversar com familiares ou simplesmente permanecer confortável. A Odontologia acompanha essas prioridades, ajustando suas intervenções às condições clínicas e às escolhas do paciente.
Mais do que buscar a ausência de todas as doenças bucais, o cuidado odontológico paliativo procura oferecer benefício real e proporcional às necessidades de cada pessoa.
Cuidar da boca também é cuidar da pessoa
A saúde bucal permanece importante mesmo quando o tratamento da doença de base deixa de ser o principal objetivo da assistência.
Nos cuidados paliativos, a Odontologia contribui para aliviar sintomas, preservar funções possíveis, reduzir desconfortos e favorecer qualidade de vida. É uma atuação que exige conhecimento técnico, avaliação individualizada e integração com a equipe de saúde — mas, sobretudo, atenção ao que realmente importa para cada paciente.
Referências científicas
Silva M, Santos ES, Pedroso CM, Epstein JB, Santos-Silva AR, Kowalski LP. Prevalence of oral diseases in patients under palliative care: a systematic review and meta-analysis. Supportive Care in Cancer. 2024;32(9):607. doi:10.1007/s00520-024-08723-9.
Serra R, Roque S, Arco H. Oral hygiene care and the management of oral symptoms in patients with cancer in palliative care: a mixed methods systematic review. JBI Evidence Synthesis. 2025;23(8):1565-1601. doi:10.11124/JBIES-24-00204.
Hong C, et al. MASCC/ISOO Clinical Practice Statement: Management of salivary gland hypofunction and xerostomia in cancer patients. Supportive Care in Cancer. 2024. doi:10.1007/s00520-024-08688-9.
Dhaliwal JS, Talip T, Rajam DT, et al. A systematic review of interventional studies on oral care of palliative patients. Annals of Palliative Medicine. 2022. doi:10.21037/apm-22-215.



Comentários