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Lesões de mucosa oral na infância

Foto do escritor: Gabrielle Aguiar
Gabrielle Aguiar
11 de set.
7 min de leitura
Laserterapia em lesão bucal
Laserterapia em lesão bucal

Lesões de mucosa oral na infância são frequentes e podem apresentar diferentes causas. Traumas, infecções, processos inflamatórios, alterações do desenvolvimento, doenças imunológicas, medicamentos e condições sistêmicas podem se manifestar na boca da criança. Por isso, uma lesão aparentemente simples nem sempre deve ser avaliada de forma isolada.

Úlceras, manchas, vesículas, alterações de coloração, aumento de volume, sangramentos e alterações em língua, lábios, gengivas ou palato podem apresentar características semelhantes, mas ter causas completamente diferentes. O diagnóstico depende da avaliação da lesão em conjunto com a história clínica e o estado geral da criança.

A literatura recente reforça a importância dessa abordagem, destacando a diversidade das lesões da mucosa oral na infância e a necessidade de considerar tanto causas locais quanto manifestações de doenças sistêmicas. [1]


Quais são as principais causas de lesões na boca em crianças?

As lesões de mucosa oral na infância podem ter diferentes origens. Entre as possibilidades estão:

  • traumas mecânicos, térmicos ou químicos;

  • infecções virais, bacterianas e fúngicas;

  • úlceras aftosas recorrentes;

  • processos inflamatórios;

  • doenças imunológicas;

  • alterações das glândulas salivares, como mucocele e rânula;

  • alterações do desenvolvimento;

  • efeitos relacionados a medicamentos;

  • manifestações de doenças sistêmicas;

  • alterações associadas ao tratamento oncológico.


Uma revisão publicada em 2022 descreveu diferentes grupos de lesões da mucosa oral durante a infância, incluindo alterações do desenvolvimento, traumáticas, infecciosas, inflamatórias e outras condições que exigem diagnóstico diferencial. [1]

Além disso, uma revisão específica sobre doenças infecciosas pediátricas demonstrou que alterações da mucosa oral podem estar relacionadas a infecções virais, bacterianas, fúngicas e parasitárias. [2]


Úlceras na boca: quando é preciso investigar?

As úlceras estão entre as manifestações mais comuns da mucosa oral na infância. Muitas apresentam evolução autolimitada, mas outras podem estar relacionadas a infecções, deficiências nutricionais, doenças gastrointestinais, alterações imunológicas ou medicamentos. A avaliação deve considerar a duração, o tamanho, o número e a localização das lesões, além da presença de dor, febre, alterações gastrointestinais, lesões de pele ou outros sintomas.

Uma revisão clínica publicada no Archives of Disease in Childhood destaca que o diagnóstico das ulcerações orais em crianças pode ser desafiador e que uma história clínica detalhada é fundamental para orientar a investigação e determinar quando é necessário encaminhar a criança para outras especialidades. [3] Por isso, uma lesão persistente, recorrente, extensa ou com características incomuns merece avaliação profissional.


Infecções também podem se manifestar na boca

A cavidade oral pode apresentar manifestações de diversas infecções da infância. Herpangina, doença mão-pé-boca, infecções pelo herpesvírus, candidíase e outras doenças infecciosas podem produzir vesículas, erosões, úlceras, placas ou alterações da mucosa.

Uma revisão publicada em 2022 analisou manifestações orais associadas a 42 doenças infecciosas pediátricas e propôs uma abordagem diagnóstica baseada na identificação da lesão, sua localização, distribuição e nos sinais sistêmicos associados. [2] Essa avaliação é particularmente importante em crianças pequenas, nas quais dor, irritabilidade, recusa alimentar ou dificuldade para ingerir líquidos podem ser manifestações indiretas de uma alteração oral.


A boca pode revelar alterações que vão além da odontologia

Em algumas situações, uma manifestação oral pode estar relacionada a uma doença sistêmica. Alterações como ulcerações persistentes ou recorrentes, sangramento gengival, petéquias, palidez da mucosa, aumento gengival e infecções recorrentes precisam ser interpretadas dentro do contexto clínico da criança.

As doenças hematológicas são um exemplo importante. Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2024 avaliou 67 estudos sobre manifestações orais em crianças com leucemia. Durante o tratamento, foram observadas com frequência alterações como cárie, gengivite, mucosite e linfadenopatia. Após o tratamento, também foram descritas alterações do desenvolvimento dentário, incluindo hipoplasia de esmalte, agenesia e microdontia. Os autores ressaltam a importância de que os profissionais de saúde reconheçam essas manifestações e encaminhem as crianças para avaliação odontológica durante o tratamento oncológico. [4]


Alterações orais também podem estar relacionadas a doenças gastrointestinais

A cavidade oral faz parte do sistema gastrointestinal e algumas doenças inflamatórias intestinais podem apresentar manifestações na boca. Na doença de Crohn, por exemplo, podem ocorrer úlceras, queilite angular, gengivite e outras alterações da mucosa. Uma revisão sistemática publicada em 2023 destacou a importância do reconhecimento dessas manifestações, especialmente porque alterações orais podem fazer parte da apresentação clínica da doença. [5]

Em crianças que apresentam lesões orais recorrentes associadas a sintomas gastrointestinais, como dor abdominal, diarreia, perda de peso ou alterações persistentes do estado nutricional, a avaliação odontológica pode contribuir para a identificação de sinais que mereçam investigação médica complementar. A avaliação, portanto, deve ser integrada e considerar a criança como um todo.


Lesões benignas também precisam de diagnóstico

Nem toda lesão de mucosa representa uma doença grave. Mucoceles, cistos gengivais, fibromas, lesões reacionais e outras alterações benignas podem ocorrer durante a infância. Algumas estão relacionadas ao desenvolvimento, enquanto outras podem surgir após trauma, inflamação ou infecção.

Uma revisão publicada em 2024 abordou as principais lesões benignas dos tecidos moles intraorais em crianças, incluindo cistos gengivais, mucoceles, fibromas, lesões inflamatórias e infecciosas. Os autores ressaltam que, embora muitas dessas condições sejam benignas, a avaliação é importante para estabelecer o diagnóstico e definir a necessidade de acompanhamento ou tratamento. [6]

O objetivo da avaliação não é necessariamente tratar todas as lesões. Em determinadas situações, a melhor conduta pode ser apenas o acompanhamento clínico. Em outras, pode ser necessário realizar exames complementares, instituir tratamento específico ou encaminhar a criança para outra especialidade.


Lesões de mucosa em crianças com doenças complexas

A atenção precisa ser ainda maior quando a criança apresenta uma condição clínica complexa. Crianças em tratamento oncológico, imunossuprimidas, submetidas a transplante ou portadoras de doenças hematológicas podem apresentar alterações orais relacionadas à própria doença, aos medicamentos ou aos tratamentos realizados. Nesses pacientes, alterações da mucosa podem provocar dor, dificuldade para alimentação e impacto significativo na qualidade de vida.

Durante o tratamento de doenças hematológicas, por exemplo, a mucosite oral é uma manifestação frequente. A presença de alterações gengivais, mucosas e infecciosas também pode comprometer o conforto e a alimentação da criança. [4] Por isso, o acompanhamento odontológico deve fazer parte do cuidado multiprofissional dessas crianças, contribuindo para a prevenção, identificação precoce e manejo das complicações orais.


O que observar em uma lesão de mucosa oral?

Na avaliação de uma alteração na boca da criança, alguns aspectos são especialmente importantes:

Tempo de evolução

Quando a lesão apareceu? Está aumentando, diminuindo ou permanecendo estável?

Aspecto clínico

É uma úlcera, vesícula, placa, mancha, nódulo ou aumento de volume?

Localização

A região afetada pode fornecer informações importantes para o diagnóstico diferencial.

Número de lesões

Uma lesão isolada pode apresentar significado diferente de múltiplas lesões disseminadas.

Sintomas associados

Dor, sangramento, febre, dificuldade para comer ou engolir e alterações do comportamento devem ser considerados.

Recorrência

Lesões que desaparecem e retornam ao longo do tempo podem exigir investigação específica.

Condição clínica da criança

Doenças crônicas, imunossupressão, medicamentos e tratamentos oncológicos podem modificar a apresentação clínica e o risco de complicações.


Quando procurar avaliação odontológica?

A avaliação por um cirurgião-dentista é especialmente importante quando a lesão:

  • não desaparece no período esperado;

  • apresenta crescimento ou mudança de aspecto;

  • ocorre repetidamente;

  • provoca dor significativa;

  • dificulta alimentação ou ingestão de líquidos;

  • apresenta sangramento sem causa evidente;

  • está associada a febre ou alteração do estado geral;

  • aparece em diferentes regiões da boca;

  • ocorre simultaneamente com alterações na pele ou em outras mucosas;

  • surge em uma criança com doença crônica, imunossupressão ou câncer;

  • aparece durante ou após tratamentos médicos.

A persistência ou recorrência de uma lesão não significa necessariamente que exista uma doença grave. Significa que é importante compreender sua causa antes de definir a conduta.


Cuidar da boca também é cuidar da saúde da criança

A boca pode ser o local de uma alteração isolada, mas também pode oferecer sinais importantes sobre a saúde geral da criança. Reconhecer uma lesão, compreender seu contexto e identificar quando é necessário investigar além da cavidade oral são etapas fundamentais para um cuidado seguro.

Na infância, uma avaliação odontológica adequada pode contribuir não apenas para tratar uma lesão, mas também para reconhecer precocemente alterações que fazem parte de um quadro clínico mais amplo.


Perguntas frequentes

O que pode causar lesões de mucosa oral em crianças?

Lesões da mucosa oral infantil podem estar relacionadas a traumas, infecções, inflamações, alterações do desenvolvimento, doenças imunológicas, medicamentos e condições sistêmicas.

Quando uma lesão na boca da criança precisa ser avaliada?

Lesões persistentes, recorrentes, dolorosas, extensas, com sangramento ou associadas a febre, dificuldade para se alimentar ou outros sintomas devem ser avaliadas por um profissional.

Afta recorrente em criança é normal?

Aftas podem ocorrer durante a infância e muitas vezes apresentam evolução benigna. Entretanto, quando são frequentes, extensas ou acompanhadas de outros sintomas, pode ser necessária investigação de possíveis fatores locais ou sistêmicos. [3]

Uma doença sistêmica pode causar alterações na boca?

Sim. Algumas doenças infecciosas, hematológicas, imunológicas e gastrointestinais podem apresentar manifestações na cavidade oral. [2,4,5]

Crianças com câncer podem apresentar lesões na boca?

Sim. A doença e seus tratamentos podem estar associados a diversas manifestações orais, incluindo mucosite, alterações gengivais e infecções. O acompanhamento odontológico deve fazer parte do cuidado multiprofissional. [4]

Toda lesão de mucosa precisa ser tratada?

Não. Algumas lesões são autolimitadas ou benignas e podem apenas necessitar de acompanhamento. A conduta depende da causa, das características clínicas e da condição geral da criança. [6]


Referências científicas

1. Aleksijević LH, Prpić J, Muhvić Urek M, Pezelj-Ribarić S, Ivančić-Jokić N, Peršić Bukmir R, Aleksijević M, Glažar I. Oral Mucosal Lesions in Childhood. Dent J (Basel). 2022;10(11):214. doi:10.3390/dj10110214.

2. Guillouet C, Riou MC, Duong LT, de La Dure-Molla M, Fournier BPJ. Oral lesions of viral, bacterial, and fungal diseases in children: A decision tree. Front Pediatr. 2022;10:937808. doi:10.3389/fped.2022.937808.

3. Johnston L, Warrilow L, Fullwood I, Tanday A. Fifteen-minute consultation: oral ulceration in children. Arch Dis Child Educ Pract Ed. 2022;107(4):257-264. doi:10.1136/archdischild-2021-321597.

4. Silveira BB, Melo LDC, Santos JA, Ferreira EB, Reis PED, Canto GDL, Acevedo AC, Massignan C, Guerra ENS. Oral manifestations in pediatric patients with leukemia: A systematic review and meta-analysis. J Am Dent Assoc. 2024;155(10):858-870.e30. doi:10.1016/j.adaj.2024.07.014.

5. Pecci-Lloret MP, Ramirez-Santisteban E, Hergueta-Castillo A, Guerrero-Gironés J, Oñate-Sánchez RE. Oral Manifestations of Crohn's Disease: A Systematic Review. J Clin Med. 2023;12(20):6450. doi:10.3390/jcm12206450.

6. Manlove AE, Quintana EN, Cuellar LM, Linnebur AM. Benign Intraoral Soft Tissue Lesions in Children. Oral Maxillofac Surg Clin North Am. 2024;36(3):265-282. doi:10.1016/j.coms.2024.01.005.5.

 
 
 

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