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Cuidados bucais após radioterapia de cabeça e pescoço: como prevenir cáries, doenças da gengiva e osteorradionecrose

Foto do escritor: Gabrielle Aguiar
Gabrielle Aguiar
11 de out.
7 min de leitura
Consultório In Medicina Oral

Os cuidados bucais após radioterapia são fundamentais para prevenir complicações que podem persistir mesmo após o término do tratamento oncológico. A redução da produção de saliva favorece o acúmulo de placa bacteriana e aumenta o risco de cáries, doenças da gengiva e perda dentária. Além disso, a radioterapia pode comprometer a capacidade de cicatrização dos maxilares, tornando necessária uma atenção especial à prevenção da osteorradionecrose e ao planejamento de procedimentos odontológicos. Concluir a radioterapia de cabeça e pescoço é uma etapa importante do tratamento oncológico, mas os cuidados com a saúde bucal precisam continuar.

A boa notícia é que os cuidados bucais diários (higiene bucal, alimentação e hidratação) e o acompanhamento odontológico regular ajudam a prevenir complicações e a preservar os dentes e a qualidade de vida.

Neste artigo, você vai entender quais cuidados são importantes após a radioterapia de cabeça e pescoço, como reduzir o acúmulo de placa bacteriana e por que alguns procedimentos odontológicos exigem atenção especial.


Por que a saúde bucal exige cuidados especiais após a radioterapia?

A radioterapia utilizada no tratamento de tumores da região da cabeça e do pescoço pode afetar as glândulas salivares, os dentes, a mucosa bucal e os tecidos responsáveis pela sustentação dentária. A intensidade e a duração dessas alterações dependem, entre outros fatores, da região irradiada e da dose de radiação recebida.

Uma das consequências mais relevantes é a redução da produção de saliva, conhecida como hipossalivação. O paciente também pode apresentar xerostomia, que é a sensação de boca seca. Essas alterações podem persistir por meses ou anos após o tratamento e, em alguns casos, ser permanentes.

A saliva desempenha funções essenciais: lubrifica a boca, ajuda a neutralizar os ácidos produzidos pelas bactérias, contribui para a remoção de resíduos alimentares e participa da proteção dos dentes contra a desmineralização. Quando a quantidade de saliva diminui, a placa bacteriana pode se acumular com maior facilidade e o ambiente bucal se torna mais favorável ao desenvolvimento de cáries e outras complicações. Por isso, a prevenção odontológica deve fazer parte dos cuidados após o tratamento oncológico.


Como o acúmulo de placa bacteriana pode provocar cáries e perda dentária?

A placa bacteriana é uma película formada por bactérias e outros componentes que se deposita continuamente sobre os dentes e junto à margem da gengiva. Quando não é removida de maneira adequada, contribui para o desenvolvimento de cáries e doenças gengivais.

Após a radioterapia de cabeça e pescoço, a redução da saliva pode acelerar o desenvolvimento de cáries, inclusive em regiões próximas à gengiva e em superfícies dentárias que anteriormente apresentavam menor risco. Em casos mais graves, a destruição da estrutura do dente pode evoluir rapidamente e comprometer a possibilidade de preservá-lo. Ao mesmo tempo, o acúmulo persistente de placa bacteriana pode causar gengivite, caracterizada por vermelhidão, inchaço e sangramento. Se a inflamação evoluir para periodontite, poderá ocorrer destruição progressiva dos tecidos e do osso que sustentam os dentes, provocando mobilidade e eventual perda dentária.

Esses problemas não devem ser considerados consequências inevitáveis da radioterapia. Entretanto, exigem prevenção reforçada, identificação precoce e acompanhamento profissional individualizado.


Quais cuidados bucais após radioterapia devem ser mantidos?

1. Escove os dentes diariamente com escova macia

Escove os dentes após as refeições e, principalmente, antes de dormir. Utilize uma escova de cerdas macias e faça movimentos delicados, alcançando todas as superfícies dentárias e a região próxima à gengiva. A escovação deve ser cuidadosa, mas eficaz. O objetivo é remover a placa bacteriana sem traumatizar a mucosa, especialmente quando ainda há sensibilidade ou dificuldade de abertura da boca.

2. Utilize creme dental prescrito pelo seu dentista

O flúor ajuda a reduzir a desmineralização e favorece a remineralização do esmalte dentário, sendo uma medida fundamental na prevenção de cáries.

Para pacientes que apresentam alto risco de cárie após a radioterapia, o cirurgião-dentista pode indicar creme dental com alta concentração de flúor ou outras estratégias preventivas, conforme a avaliação clínica.

A concentração e a forma de utilização devem ser definidas pelo profissional. Não substitua o produto prescrito por um creme dental convencional sem orientação.

3. Higienize os espaços entre os dentes

O fio dental ou as escovas interdentais ajudam a remover a placa bacteriana que se acumula entre os dentes, onde a escova convencional não alcança adequadamente.

A escolha do recurso deve considerar a condição da gengiva, a presença de próteses e a capacidade de higienização do paciente. Se houver dor, sangramento persistente ou dificuldade para realizar a limpeza, procure orientação odontológica.

4. Adote medidas para aliviar a boca seca

A boca seca pode dificultar a fala, a mastigação, a deglutição e a própria higiene bucal. Para aliviar o desconforto:

  • Beba água em pequenos goles ao longo do dia, respeitando eventuais restrições médicas.

  • Converse com o profissional sobre o uso de substitutos salivares e géis ou sprays hidratantes próprios para a boca.

  • Quando houver capacidade salivar residual e não existirem contraindicações, produtos sem açúcar destinados a estimular a salivação podem ser considerados.

  • Evite enxaguantes bucais com álcool e produtos que provoquem ardência ou irritação.

  • Reduza a frequência de consumo de açúcar e evite manter bebidas açucaradas em contato prolongado com os dentes.

A boca seca persistente deve ser avaliada, pois o tratamento depende da intensidade da alteração salivar e das necessidades de cada paciente.

5. Mantenha uma alimentação que favoreça a saúde dos dentes

O consumo frequente de açúcar aumenta a exposição dos dentes aos ácidos produzidos pelas bactérias da placa. Por isso, é importante limitar a frequência de alimentos e bebidas açucarados. Se houver dificuldade para mastigar ou engolir, procure orientação da equipe multidisciplinar para adaptar a consistência dos alimentos sem comprometer a hidratação e a nutrição.


O que é osteorradionecrose e por que ela preocupa após a radioterapia?

A osteorradionecrose dos maxilares é uma complicação associada à radioterapia de cabeça e pescoço, caracterizada pela incapacidade de cicatrização adequada do osso irradiado, com exposição óssea persistente ou outras manifestações clínicas compatíveis com o diagnóstico. A radiação pode provocar alterações nos vasos sanguíneos, nas células e nos mecanismos de reparação dos tecidos. Como consequência, determinadas regiões dos maxilares podem apresentar menor capacidade de recuperação diante de traumas, infecções ou procedimentos cirúrgicos. O risco varia conforme fatores como a dose e a distribuição da radiação no osso, a localização do tratamento, as condições bucais e os procedimentos realizados após a radioterapia. A osteorradionecrose pode causar dor, exposição óssea, infecção, dificuldade de alimentação e comprometimento importante da qualidade de vida. Em alguns casos, o tratamento é complexo e exige acompanhamento especializado.

Ter realizado radioterapia não significa que o paciente desenvolverá osteorradionecrose. O objetivo dos cuidados preventivos é reduzir os fatores de risco, identificar alterações precocemente e planejar adequadamente qualquer intervenção odontológica.

Como reduzir o risco de osteorradionecrose?

A manutenção da saúde bucal é uma das medidas importantes para reduzir a necessidade de procedimentos invasivos. Para isso:

  • Mantenha a higiene bucal diária e controle a placa bacteriana.

  • Realize consultas odontológicas periódicas, mesmo quando não houver dor.

  • Informe ao cirurgião-dentista que você recebeu radioterapia de cabeça e pescoço.

  • Sempre que possível, apresente informações sobre a dose de radiação recebida e as regiões irradiadas.

  • Não realize extrações dentárias ou cirurgias bucais sem avaliação prévia do risco relacionado à radioterapia.

  • Procure atendimento diante de feridas persistentes, exposição óssea, dor localizada, secreção ou inchaço.

Se um dente apresentar infecção ou comprometimento importante, a decisão entre preservá-lo e removê-lo deverá considerar as condições clínicas e o risco individual de osteorradionecrose. A extração não é automaticamente proibida, mas requer planejamento cuidadoso e, quando indicado, participação de profissionais com experiência no atendimento odontológico oncológico.


Quando procurar o cirurgião-dentista?

Não espere surgir dor intensa para buscar atendimento. A avaliação odontológica periódica é muito importante para a prevenção de problemas. Após a radioterapia, algumas alterações podem evoluir antes de provocar sintomas importantes.

Procure avaliação odontológica se apresentar:

  • Novas cáries, manchas ou sensibilidade dentária.

  • Sangramento, inchaço ou retração da gengiva.

  • Mobilidade dentária.

  • Boca seca persistente ou dificuldade para higienizar os dentes.

  • Feridas que não cicatrizam.

  • Exposição de osso na boca, dor persistente, secreção ou inchaço.

A presença de osso exposto, especialmente quando acompanhada de dor ou secreção, requer avaliação profissional rápida.


Com que frequência devo fazer acompanhamento odontológico após a radioterapia?

A frequência das consultas deve ser individualizada de acordo com o risco de cárie, a condição periodontal, a intensidade da boca seca, a dose e a região irradiada e a presença de outras complicações.

Pacientes com alto risco de cárie ou alterações salivares importantes podem precisar de consultas mais frequentes, aplicações profissionais de flúor e medidas adicionais de prevenção.

O acompanhamento permite identificar precocemente lesões dentárias, inflamação gengival e alterações dos tecidos bucais, além de planejar tratamentos com atenção especial à capacidade de cicatrização dos maxilares.


Acompanhamento odontológico após o tratamento oncológico

O cuidado com a saúde bucal continua sendo parte importante da assistência ao paciente após a radioterapia de cabeça e pescoço. O acompanhamento odontológico pode contribuir para a prevenção de complicações, a preservação dos dentes e o planejamento seguro dos cuidados bucais após o tratamento oncológico.


Cuidar da boca após a radioterapia é cuidar da saúde, da alimentação, do conforto e da qualidade de vida.


Perguntas frequentes sobre saúde bucal após radioterapia

A radioterapia pode causar cáries mesmo depois de terminar o tratamento?

Sim. A redução persistente da produção de saliva pode aumentar o risco de cáries mesmo após o término da radioterapia. A higiene diária, o uso de flúor e o acompanhamento odontológico são essenciais para reduzir esse risco.

Por que a gengiva precisa de atenção especial após a radioterapia?

O acúmulo de placa bacteriana pode provocar inflamação gengival e, quando há progressão para periodontite, comprometer os tecidos e o osso que sustentam os dentes. O controle da placa e a avaliação profissional ajudam a prevenir essas complicações.

Posso extrair um dente depois da radioterapia de cabeça e pescoço?

Sim, quando houver indicação clínica, mas a decisão exige avaliação individualizada. O risco de osteorradionecrose depende, entre outros fatores, da dose de radiação recebida pelo osso da região. O procedimento deve ser planejado por profissionais que conheçam o histórico oncológico do paciente.

A osteorradionecrose pode aparecer anos depois da radioterapia?

Sim. O risco pode persistir por muitos anos após o tratamento. Por isso, é importante informar o histórico de radioterapia em todas as consultas odontológicas e manter o acompanhamento preventivo.

A boca seca após a radioterapia tem tratamento?

Existem medidas para aliviar os sintomas, como substitutos salivares, produtos hidratantes e, em pacientes selecionados, medicamentos que estimulam a salivação. A escolha depende da função salivar residual, das contraindicações e da avaliação profissional.

Referências científicas

  1. PETERSON, D. E. et al. Prevention and Management of Osteoradionecrosis in Patients With Head and Neck Cancer Treated With Radiation Therapy: ISOO-MASCC-ASCO Guideline. Journal of Clinical Oncology, v. 42, n. 16, p. 1975–1996, 2024. DOI: 10.1200/JCO.23.02750.

  2. MERCADANTE, V. et al. Salivary Gland Hypofunction and/or Xerostomia Induced by Nonsurgical Cancer Therapies: ISOO/MASCC/ASCO Guideline. Journal of Clinical Oncology, v. 39, n. 25, p. 2825–2843, 2021. DOI: 10.1200/JCO.21.01208.

  3. SAUNDERS, D. et al. Prevention and Management of Osteoradionecrosis in Patients With Head and Neck Cancer Treated With Radiation Therapy: ISOO-MASCC-ASCO Guideline Clinical Insights. JCO Oncology Practice, v. 20, n. 12, p. 1571–1574, 2024. DOI: 10.1200/OP.24.00182.

  4. Aguiar GP, Jham BC, Magalhães CS, Sensi LG, Freire AR. A review of the biological and clinical aspects of radiation caries. J Contemp Dent Pract. 2009;10(4):83–89. PMID: 19575058.


As recomendações deste artigo são educativas e não substituem a avaliação individualizada por um cirurgião-dentista e pela equipe assistencial responsável pelo tratamento oncológico.

 
 
 

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